Templates da Lua

a Remetente
Sabe o Grilo Falante, de Pinóquio? Talvez eu só esteja em busca da minha humanidade, e Hans seja a minha consciência gritando alto. É sempre mais fácil escrever para alguém e se você supor que a pessoa te conhece a tal ponto de compreender suas maiores loucuras e seus piores pensamentos... As palavras correm soltas. Você deveria tentar qualquer dia desses.


Caixa Postal

carollis.tumblr twitter.com/carolliiiiina .facebook.com/carolina.cds

Correspondências

quarta-feira, 14 de junho de 2017

sobre o último dia;

E hoje é o último dia. Nas nossas contas anteriores, deveria ter sido na última sexta, mas tivemos uma enchente no meio do caminho, o que adiou um pouco o fim. Mas tudo bem, por que hoje é o último dia. Estou eufórica, Hans. Não acredito que não precisarei mais ir para a faculdade, pegar ônibus, passar frio nas noites riosulenses, estar sempre cansada e com sono no dia seguinte. Ah. Hoje é o último dia!

Sabe que não pensei no pós? Como será daqui para frente? OK, penso muito em dormir, mas em algum momento o sono acumulado deve ser todo colocado em dia. Sentirei falta em algum momento? Talvez das pessoas, colegas e professores.  Não sei... Talvez um pouquinho, vai.

O que importa mesmo é que ACABOU. Sobrevivi. Fui até o fim - pelo menos se o Universo colaborar e nada trágico acontecer nesse dia. (Talvez eu devesse ter deixado para escrever esse post amanhã...). 

Chegamos na reta final, Hans. 
C.G.

Update 19/06/2017: Sobrevivi.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

sobre não suportar mais a faculdade;

Eu não havia realmente parado para pensar sobre escrever isso antes de agora, Hans. Mas acho que vale deixar registrado o sentimento que me assola, assim como deixei tantos outros e que agora já não possuem o mesmo significado.
        Não lembro se cheguei a comentar o motivo que me fez entrar para aquele (esse!) curso. Confesso que nem tenho certeza se o motivo que acredito que seja verdadeiro seja realmente o verdadeiro. Acho que quis sacudir a poeira, sair da zona de conforto, me obrigar a lidar com pessoas e, consequentemente, fazer novas amizades. Talvez eu não imaginasse que poderia dar tão errado. OK, eu fui obrigada a lidar com novas pessoas e, de certa forma, fiz novas amizades. Me conhecendo o suficiente, sabemos que não serão amizades que levarei para a vida, pelo simples fato de que não existe esse tipo de amizade na minha vida como uma constante. Não sinto esse tipo de apego.
        No início era um desconforto. E um pouco de enjoo no ônibus. Depois do primeiro semestre, ambos passaram. O segundo foi de boa, sinceramente pouco me lembro dele. Mas o terceiro foi horrível. E você sabe, depois que a coisa desanda, não há o que me faça ver com bons olhos novamente. E assim foi, o encanto se perdeu, as amizades aumentaram – nada como ter inimigos em comum para unir uma turma! – mas o estresse tomou conta. Eu quase desisti – e foi a runa e o FIES que não me deixaram! – mas cá estou, faltando sessenta e sete dias para terminar o sétimo semestre e me ver livre dessa faculdade horrível.
Esse semestre está sendo difícil, Hans. Todo tipo de fobia voltou, inclusive o enjoo no ônibus – efeito psicológico do meu desgosto. Eu não suporto mais ir até lá e estar lá. E nunca fui de esconder certos sentimentos, então também não tenho sido a acadêmica mais agradável... Não me orgulho, mas também não posso evitar. 

O mau humor não modifica a vida, dizia Chico Xavier, mas serão sessenta e sete dias infernais e eu preciso passar por eles de qualquer forma. 
Que assim seja.
C.G.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

sobre os quase trinta;



Me peguei esses dias pensando que, chegando agora aos vinte e oito, estou com quase trinta. Idade em que, nos noticiários, qualquer uma já é tratada como mulher, e não mais como jovem. Mas me sinto jovem, a realidade dos quase trinta parece tão distante, apesar de faltar apenas dois. Com quase trinta, minha mãe já estava grávida do quarto filho. A primogênita já havia casado, se mudado para a Europa e, se não me engano, se divorciado e já era mãe de três. Minha outra irmã já era mãe também. 

E eu? Ainda posto diariamente fotos do look do dia no Instagram. Tenho um cargo público, mas sinceramente, o Universo me deu ele sem nenhum esforço da minha parte. Diferente das outras mulheres da minha família, minha gestação é de sete semestres, e meu filho é um curso que não exige nada da minha capacidade intelectual. Não tive nenhum relacionamento duradouro, apesar de todos terem deixado suas cicatrizes profundas o suficiente para que eu desistisse de vez. Os poucos amigos que tenho, em sua maioria, estão distante geograficamente, e, levando em consideração que não sei lidar com pessoas muito próximas, é esse o fato que tem mantido nossa amizade de anos. Com quase trinta, sinto que não realizei nada. Ainda moro com meus pais, e não pretendo sair de lá tão cedo... Na verdade, metade dela me pertence, está comprovado na escritura, então porque deveria me apressar em sair da minha casa?

Com quase trinta, vivo uma vida relativamente boa e feliz. Mas ainda assim, sinto que tenho desperdiçado tempo. Por outro lado, parece que não tenho desperdiçado sozinha. Talvez seja o mal da geração dos anos 80/início dos 90, que não percebe o passar do tempo, e vê agora a geração seguinte nos alcançando e se realizando.

Com quase trinta, não vejo absolutamente nenhum tipo de mudança me alcançando e, a não ser que o retorno de Saturno chegue e vire tudo de pernas para o ar, parece que continuarei catalogando meus looks, sendo servidora pública, morando com meus pais e tendo um diploma inútil na gaveta. Não me leve a mal, eu gosto da minha vida, se paro para pensar nela, não há mais nada que eu poderia desejar – a não ser, claro, o desejo da maioria das pessoas de ter milhões na conta e viajar o mundo despreocupadamente - mas existe aquela sensação...



Com quase trinta eu não fiz nada.
Com quase trinta eu não faço a mínima ideia do que fazer.
C.G.

sábado, 17 de setembro de 2016

sobre o mundo que queremos viver;

Me peguei hoje pensando que não quero mais viver nesse mundo, Hans. Não é literal, você sabe – penso demais nos outros, aquela parcela importante e que não quero absolutamente nenhum mal ou tristeza. Mas sabe quando você vê – e lê – coisas tão absurdas, que se pega pensando o que está fazendo aqui? Você sabe que tenho um pé no espiritismo - não vejo a necessidade do rótulo, mas aqui acho importante para você entender meu ponto – e com isso me pego pensando por que estou aqui, sabe? Escolhi essa geração, essa parte da história da humanidade. E foi uma péssima escolha de mundo. Poderia ser pior, bem sei. Até que escolhi – não sei se ao acaso, mas dá pra acreditar em acaso? – alguns privilégios. Por outro lado: Deveria ter privilégio? Claro que não. Mas nesse ponto da história da humanidade ainda existem esses tais privilégios. E vim com alguns deles.

Minha mãe costuma dizer que a Vovó Velha dizia que a humanidade chegaria num ponto em que ninguém mais se entenderia. Estamos quase lá, não estamos? Tem gente espetando agulhas – com sabe-se lá o quê – nas pessoas por aí, Hans! Tem gente violentando crianças de dois anos. DOIS ANOS! Ninguém mais tem respeito por ninguém. Ou vergonha-na-cara.

Estou cansada. Estou triste, também. Ontem Domingos se afogou num rio, e isso me entristeceu de uma maneira que estou a ponto de chorar. Me peguei pensando em seu desespero, na luta por fôlego, no pensamento com os filhos, a esposa. Ninguém quer realmente morrer, Hans. Ainda não chegamos nesse ponto de evolução onde a Morte possa ser apenas uma viagem.

Você vê a contradição aqui? O mundo está um caos, mas não queremos morrer. Talvez ainda reste alguma esperança, apesar que a minha se encontra mais no Ápice de 2036, confesso.
Eu não quero mais viver nesse mundo, Hans.
Então está na hora de começar a construir um melhor.
Pelos Domingos que foram cedo demais;
Por seus filhos, nossas crianças.
C.G.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

sobre o mal costume das fases boas;


Quanto tempo, não é mesmo? Acho que posso justificar – não que eu precise – esse tempo como uma fase boa. Não tenho necessidade de vir até aqui quando me encontro em fases boas, você sabe. Não sei quando foi a última vez, nem mesmo se foi em dois mil e dezesseis, mas as aulas começaram de novo, o TCC está aí, briguei com a chefa, Fabíola está desempregada, Eleonora está muito bem, obrigada.

Aliás, foi ela que me fez vir até aqui. Quase chorei agorinha a pouco, ao receber uma foto da minha pequena totalmente preguiçosa, usando meu pijama como travesseiro, enquanto dorme na minha cama. Eu a amo, Hans. E esse sentimento quase me fez chorar, não é idiota? Claro que há todo um contexto... Shyrra morreu. E, em partes, sinto como se pudesse ter sido comigo e tenho amassado – e amado – Eleonora mais que o normal. É um daqueles momentos em que você se lembra que ainda há de passar por tantos sofrimentos – como a perda da sua gata gorda, sua eterna pequena ou ainda perda de alguém da família. Perda de seres importantes.

Ainda hei de passar por isso, já que ao que tudo indica – as estatísticas estão a meu favor – a ideia é de que os mais velhos morram antes – apesar de ninguém ter certeza de nada nessa vida. Não quero passar por nada disso. Quero que o aperto no peito – que aqui se encontra – vá embora, e que eu possa voltar a respirar fundo – aliviada – novamente. Tenho sido mal acostumada com longos tempos de fases boas.

Talvez seja o inverno. Você sabe como eu odeio o inverno, os dias cinzas, chuvosos e frios. Quero viver um eterno Verão.



“...Mas é claro que o Sol vai voltar amanhã.”
Tomara, Renato. Tomara.
C.G.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

sobre dois mil e quinze;

Dois mil e quinze passou, Hans. Mas não antes de me presentear com o restaurar da nossa família. Em partes, por que também não podia exigir tanto, mas acredito que dois mil e dezesseis me traga o resto. Também não precisa me trazer, eu mesma vou atrás buscar.

Qualquer coisa que eu tenha vivido e tenha sido - por mim declarado, mas não realidade, observo - um fracasso, foi totalmente anulada por aquele dia vinte e quatro de dezembro. Só tenho a agradecer pela forcinha do Universo, pela calma do Mestre, pelo sopro de gratidão. Foi ótimo, Hans.

Talvez a faculdade não tenha sido tudo aquilo que eu imaginei. Talvez o curso esteja errado, a instituição, alguma coisa. Por outro lado, uma coisa ou outra a gente aprende, seja pra vida profissional ou apenas pra vida. 

Sobre as vidas que nos deixaram, tivemos nossas perdas. A ausência sempre dói mais nos próximos. Compramos a casa, a terceira parte dela, no caso. Agora são duas partes, e por enquanto: uma. Levei alguns sustos, pensei estar prestes a perder meu amor mais sincero, mas controlamos a situação. Está tudo bem. Estamos todos bem. 

E por causa do décimo segundo, posso dizer que não apenas sobrevivi ao ano, mas vivi. Talvez sejam mudanças internas ou apenas novas configurações astrológicas, mas os vinte e sete começaram bem.

Garanto que 2016 será tão bom quanto.
Só depende de nós.
C.G.



terça-feira, 27 de outubro de 2015

sobre os males que fazemos aos nossos pais;

Vou ser compreensiva e dizer que até entendo que talvez não seja intencional. Pelo menos prefiro acreditar que na maioria das vezes não seja. Exceto talvez naquela fase rebelde da adolescência, que parece dar um gostinho de vingança fazer um malzinho àqueles que não nos permitiram algo que queríamos.

Sinceramente não lembro de ter cometido uma dessas vingancinhas, mas certamente fiz. Quem bate nunca lembra, não é mesmo? Nas lembranças constam outros males. A insistência em me distanciar mais de mil quilômetros, o silêncio na mesa, na casa, na vida. Eu também cometi os meus, sabe? Também fiz mal àqueles que hoje tanto prezo em ver bem.

Não sei exatamente quando as coisas mudaram, quando foi que eu passei a vê-los como uma joia rara que eu precisava segurar e proteger? Apenas sei que tem se tornado mais difícil, conforme os anos se passam, e não voltam.

Não voltam, Hans. É nesse ponto que mais me aflijo. Cada momento vivido não volta mais, e chegamos num ponto em que estamos correndo para o fim. Estarei sozinha, em algum momento. Talvez ainda dure mais do que já vivi, talvez só dure até amanhã. 

Mas eu os tenho comigo hoje, você me entende? Eu os fiz rir, ainda hoje. Conversamos, ainda hoje. Estamos todos bem. Estamos juntos. Acontece que não posso fazer por cinco, cabe fazer a minha parte, não posso ser cinco. Ou duas, ou três. 

Não posso ser três.  Posso ser apenas a filha mais nova, a mais decidida, tantos outros adjetivos que me deram. Sou essa. Não posso ser eles. Não posso ser Jaques, nem Ezequiel. Será que eles, em algum momento, chegaram a pensar sobre os dias que não voltarão? Sobre o mundo solitário que nos espera? 

As coisas tem sido difíceis, Hans.
C.G.